"Consciência, onde estás?"

 O Cordel da Angústia Altiva

Por João Marcos Bezerra Arrais

Eis-me em terras muito áridas:

Fome, sede e desespero,

Mães magrelas, filhos mortos,

Homens loucos encrenqueiros.

Onde a vida se encontra?

Lamentai, ó cancioneiros!


Enviado da arrogância,

Fui caçar com meu canhão

Os chamados cangaceiros,

Falsa nobreza do cão.

Lampião, ‘tônio Silvino

- Preparo vosso caixão!


Em arbustos muitos secos,

Encaro aquele covil

Onde seus passos planejam:

Rapadura se sentiu,

Tem barraca, tem fogueira.

Sim, sim: cangaço caiu.


Pego meu rifle sem dó,

Discreto como preá;

Ninguém vai me descobrir

(Só se um zabelê contar)

Ponho dedo no gatilho,

Apago sem atirar.


Que será que se passou,

Que meu rifle não rugiu?

Vi estrelas, vi caminhos,

Escuridão não fingiu.

Consciência, onde estás?

Tu fostes, paz se fugiu!

Mas senti bem apertado,

Um gosto de puro pó,

Escutei sonzin de arma,

Um odor de algo pior,

Meus olhos viram o medo.

Deus, salvai-me e tenha dó!


Em pé Antônio Silvino,

Um cangaceiro finado.

Meus órgãos se estremeceram,

Pois Lampião estava ao lado.

Quando inferno se abriu

E prendeu-me assim calado?


Eu tentei me libertar,

Mas cadeira me prendia.

O suor era o meu banho,

A lágrima entretinha.

Deus, se não quer minha vida.

Dê-me a morte, corte a linha.


“Veja só, dono Silvino,

O sujeito despertou”,

Falou logo Lampião

Quando ele me avistou.

“Já tô com minha peixeira”,

Que Silvino retrucou.


Os dois chefes do cangaço

Se puseram a falar:

“Que faremos com o rapaz

Que veio nos destronar?”.

Depois de um certo tempinho,

Disse Antônio: “Torturar”.

Tirou do cinto a peixeira

E no fogo a esquentou;

Levantou-a ao seu peito,

De meu rosto aproximou.

Aproximou mais um pouco,

O suor a esfriou.


“Eita, que tu tá mui tenso,

Suando muito que só”

Virando-se a Lampião:

“No pescoço dê um nó;

Mas tu faça o que quiser,

Apenas não tenha dó”.


Mas achei muito estranho,

Coisa que o suor confirma:

Lampião arma não tinha,

Tão somente cachacinha.

Estendeu copo a mim:

“Abre os dentes, gazelinha”.


Como não tinha opção,

Engoli toda a bebida

Senti um baita prazer

Que nunca tive na vida.

Lampião com o copinho,

Deu volta depois de ida.


Foi assim se sucedendo

Que bebida muito boa!

“Dá-me mais, mais um pouquinho”,

Disse eu, bêbado à toa.

Olhe eu de pé inchado;

Em álcool, faço canoa.

Parecia que o suor

Havia se alcoolizado;

Quentes águas da cabeça

Frias tinham se tornado.

Mas temia que o prazer

Já tava quase findado.


Quantos goles mais bebia

Mais sede de álcool eu tinha.

Quanto mais copo acabava,

Minha angústia se entretinha.

Carnaval de cachaceiros:

Esperança na tacinha.


“Te levanta, seu pinguço,

Deixa eu te mostrar negócio”,

Disse o grande Lampião

Ao tirar-me de meu ócio.

Desatou-me da cadeira

E tampou-me meus dois zóios.


Não consegui compreender

A cena que acontecia;

Só sei que muito eu andei

(Lampião, o que faria?).

Mas ouvi vozes de moças

Doces como azul do dia.


O vice-rei do cangaço

(Pois rei somente Silvino)

Tirou de meu rosto a venda

E avisou-me: “É um cassino

Feito por conquistas minhas:

As mulheres de assassinos”

Perguntei: “Mas que é isto?”.

Respondeu-me: “Aproveite!

É tudo bem planejado

Apenas pro seu deleite”.

Então foi-se o homem embora

Para eu não ficar de enfeite.


Pois então aproveitei

Tudo naquelas mulheres:

Belos rostos, belos beijos

(Meu prazer virou alferes).

Ó prazer que ali esteve,

Todo sofrimento feres!


Mas chegou momento estranho

Que prazer não quer lidar:

Toda boa ocasião

Não sei como aproveitar;

Angústia, minha inimiga,

Apressou-se em mim voltar.


Não achei mais o sentido

Em buscar ali prazer.

De que adianta me afirmar

Em coisa que faz morrer?

Pois a morte acometeu-me

Estando ainda eu a viver.


“Seu Lampião!”, eu gritei,

“Não aguento esse cassino;

Que tortura me puseste

Com sofrimento com hino?

Quero só o melhor pra mim.

Que reserva-me o Silvino?”.

E quase de imediato

Que armas se dispararam;

As moças fugiram logo:

“Que homens aqui atiraram?”.

Os terrores em meu peito

Rapidamente brotaram.


Não sabia o que fazer,

Eu fiquei em confusão.

Será que assim que se finda

Tortura de Lampião?

Deus me livre de voltar

A achar insatisfação.


Confesso que medo tive

Pois passos se ouviam alto,

Talvez de uma armada inteira

Talvez rebanho de gado.

Será que Antônio Silvino

A mim havia chegado?


Com medo paralisei,

Temi ao que me ocorreria.

Era, sim, ‘tônio Silvino

E sua turma que vinha.

Com revólveres e rifles,

Mortos ao céu fornecia.


Me olhou o rei do cangaço:

“Venha aqui, jovem fracote;

Minha vez de torturar

E rebentar o teu cangote.

Tome aqui essa pistola”,

E deu-me arma o homem forte.


Ao pegar tal armamento,

Proclamou: “É cangaceiro!

Venha comigo e meus homens

Pra caçar o dia inteiro

Todos que odeiam pobres

E os tratam como banheiro.


Saiba que ser cangaceiro

É viver pelo dever;

É querer muita justiça

E fazer o mau morrer;

É pra te tornar herói,

Renegar todo prazer”.


“Mas senhor ‘tônio Silvino”,

Pus-me logo a replicar,

“Se pra tu isso é tortura,

Eu creio que é se alegrar.

Tô cansado de prazer,

Santo quero me tornar”.


“Há! Vá achando que é assim”,

Riu Silvino sem remorso,

Batendo mão no joelho,

Expurgando todo ócio.

Começou minha tortura,

Nem sentia, nem me coço.


Pois então nós começamos:

Propriedades invadimos,

Fizemos muita justiça.

Nos tacharam de assassinos.

Deixamos pobres felizes

E aos ricos tocaram sinos.

Compromisso e utilidade

Deveres sem um prazer

A vida de cangaceiro

É um infindo aprender 

Sem tempo pra divertir-me

Pude ver meu eu crescer.


O que prazer não me dava,

Santidade concedia.

O que era melhor pra mim

Era tudo o que eu queria.

Mas quando achei que tortura

Dono Silvino esquecia


Angústia me penetrou,

Me deixou em confusão.

Nem dever nem o prazer

Satisfez meu coração.

Cangaceiros que me iludem

Torturam por ilusão.


Assim que meu desespero

Floresceu com tal maldade,

Desmaiei como no início

Quando cacei com vontade.

As trevas me consumiram

Consciência fez saudade.


Encontrei-me na cadeira

Que outrora me amarrara.

Como estava meio zonzo,

Alguém deu tapa na cara.

Acordei de um susto grande.

Mas não sei quem me encara.

Só que o “quem” virou o “quais”,

Pois eram dois cangaceiros

O rei e seu vice-rei,

Do sertão mui baderneiros;

Ambos segurando rifle

Com pose de encrenqueiros.


“Então diga-me, sujeito”

Um deles pôs-se a falar,

“É Antônio ou Virgulino

Que com sua paz vai findar?”

Rezei cinco Padre-nosso,

Venha meu Deus me salvar!


Como fui parar aqui,

Com dois rifles em meu rosto?

Quando foi que decidi

Adentrar neste desgosto?

Por que quis que todo sangue

Derramasse como mosto?


Foi por pura arrogância,

Foi por amar muito a mim;

E as torturas são bem feitas

Por exaltar-me sem fim.

No dever e no prazer:

Amei muito a mim assim.


É por isso que a angústia

Se tornou a minha irmã;

É por isso que a desgraça

Foi feita como divã.

Se meu eu não fosse deus

Acordaria amanhã.

Como pude ser assim?

Lampião, seu hedonista:

Meu prazer é só pra mim.

Silvino, seu legalista:

Honra só pro meu estômago.

Meu ego muito egotista


Acabou me dominando.

Sempre mais e nunca menos

Por isso ando aqui sofrendo.

Se houvesse via ao menos,

Contrária ao meu amor-próprio,

Com resultados amenos...


Lampião e seu Silvino

Esperaram decidir:

Qual angústia eu prefiro,

Qual lugar quero cair:

Se na seca do prazer

Ou na hipocrisia ir.


Mas, visto que era ao ar livre

O aposento da tortura,

Somente olhei pro azul céu:

“Sei que essa minha loucura

Veio por amar a mim.

Sei que ali não há secura


Não tem espaço pro eu.

Lá há o verdadeiro amor

O que deve ser amado.

Onde se finda o horror

Onde a angústia se angustia.

Vida é minha, outro senhor”

Pensei que chegara a hora

Em que morte beijaria

Mas quando eu olhei pra baixo

(Com a paz e calmaria)

Cangaceiros sumiram.

Fui-me embora, cara fria.


Mas feliz eu pude me achar:

Amor real pude encontrar.


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