“Por que lemos Machado de Assis na escola?”

 Entrevista com Arquelana

Por Isabele Uratsuka

Arquelana / Instagram

Ana Mendes, mais conhecida como Arquelana pelo Bookstagram, é uma ex-aluna do Colégio Exato, formanda da turma de 2018, que atualmente cursa Letras na USP e que criou seu IG literário @arquelanalivros pouco depois do início da pandemia, para poder falar de livros e compartilhar seu amor pela literatura e ver gente compartilhando desse mesmo amor de volta, criando um ambiente acolhedor para todas as pessoas amantes da literatura.


Então Ana, de onde surgiu o nome Arquelana? 

Meu livro favorito é As Crônicas de Nárnia, e C. S. Lewis tinha um probleminha... Bem, um probleminha não, um problemão, né? Ele tinha muitas falas racistas durante o livro. É um livro da Segunda Guerra Mundial, etc. Enfim, tem um país de Nárnia chamado Arquelândia, e os moradores de Arquelândia são descritos como pessoas de pele escura e selvagens, um tipo meio sujo, incivilizado… E eu falei “quer saber? Eu se fosse daquela época teria sido descrita como alguém do povo de Arquelândia”. Aí veio a Arquelana, pra ressignificar.

 

Qual foi seu primeiro contato com a literatura?

Meu pai é escritor, então eu cresci com uma biblioteca gigante em casa, por isso leio desde pequenininha.

 

O quanto você diria que a literatura influenciou na sua vida?

A literatura influenciou todas as partes da minha vida. Ela tava presente comigo durante todo o meu crescimento. Então ela influenciou minha faculdade, minha profissão, meus hobbies também, porque meu hobby de escrever veio da literatura, se eu escrevo hoje, é porque eu li.

 

Acompanhando seu Instagram dá pra ver que você é bem multitarefas. Pode falar um pouco dos seus projetos literários e do seu trabalho?

Eu tenho 3 projetos principais. O que deu melhor resultado foi o #callmegringo, que é um programa de incentivo a leitura em outros idiomas. Tiveram mais de 150 pessoas trabalhando com a gente durante esse 1 mês de projeto, e tivemos feedbacks muito bons de pessoas que conseguiram estudar melhor idiomas por causa do projeto. Tem o #AmplificarNegritudes, que acontece todo novembro e serve pra divulgação de autores nacionais, incentivar a leitura de textos de autores negros que não são tão reconhecidos. E tem o #DentroDoGrisaverso, um projeto de incentivo a leitura de um universo de fantasia. A gente tem mais de 100 pessoas no grupo do Telegram também, e a gente organiza uma rede de leitura coletiva e de incentivo a leitura.

Além disso, eu trabalho com 3 coisas diferentes: meu estágio, em que trabalho com editoração, onde eu faço revisão, tradução, preparação de texto, etc. Trabalho também como escritora fantasma, onde eu escrevo pra outras pessoas, e eu tenho o Amplifik que é um projeto pra amplificar vozes de autores nacionais, nele a gente faz todo o serviço editorial, de capa, edição, revisão e a gente ajuda os autores nacionais a colocarem suas obras no mundo, com um preço que o autor nacional consiga pagar sem se sobrecarregar.


Porque você acha importante estudar literatura, principalmente a nacional? 

A literatura nacional conta a história do Brasil desde o momento que os portugueses chegaram aqui pela primeira vez. Então a gente tem a carta de Pero Vaz de Caminha, que já conta como literatura. Se nos aprofundarmos um pouco mais, a gente tem literatura indígena, negra, e a gente aprende, a literatura nacional conta a história do Brasil. A gente precisa aprender, do mesmo jeito que a gente aprende história, a gente precisa aprender literatura como uma forma de entender o que o Brasil era, quais épocas o brasil viveu, e inclusive ajudar a gente a se guiar pro futuro.

 

A literatura brasileira é muito rica. Então por que continua sendo tão desvalorizada? 

Porque o brasileiro tem na veia uma mania de achar que tudo que vem de fora é melhor. A gente começa isso a partir do ponto de vista histórico. Quem conta a história do Brasil não é o brasileiro, quem contou a primeira história do Brasil foi Pero Vaz de Caminha, um português que veio pra cá. Então a gente tem a história de um povo que é contada por outros povos. A gente tem uma necessidade de criar uma identidade, e como a gente sente que não tem uma própria, a gente busca nos outros. Na Era Vargas tinha toda essa política da boa vizinhança, de importação de mídia. Então a gente teve essa questão de olhar pra fora, olhar pro American Way Of Life, e pensar “eu quero isso, eu quero viver isso” e toda hora é “ai eu quero largar o Brasil, quero ir pra fora porque pra fora é melhor”, e isso vai se espelhar na literatura. É um retrato social não só literário, mas da vida. A gente tem Síndrome de Vira-Lata com tudo, com filme, série, literatura, com o nosso estilo de vida mesmo, a gente tem esse senso de Vira-Lata. A literatura é só um espelho.

 

 O que você acha dos e-books? Qual a influência e importância dos e-books na nova leva de jovens (ou não tão jovens) autores que só existem na internet?

O e-book é democrático. Por que é que eu digo isso? Um autor nacional vai pagar infinitamente menos pra publicar um e-book do que um livro físico. Custa muito caro publicar um livro físico. Assim, caro mesmo. Nível de mais de 10 mil reais. Não é todo autor que tem 10 mil reais pra publicar um livro. Na verdade, quase nenhum tem. Então o e-book é uma forma de democratizar. Além de democratizar, você abre espaço pra quem pega transporte público todo dia, por exemplo, e que não tem espaço pra um livro gigante na bolsa, que entra no caso do estudante. É mais fácil você carregar um livro no celular do que ter um livro gigante pra carregar e ocupar espaço na sua bolsa. Você também torna o ambiente um pouquinho mais agradável, porque você já está acostumada a passar o dia inteiro no celular. O e-book é só outra forma de você usar o celular, então ele é democrático, atual, e muito econômico.

 

O internetês já faz parte da vida do brasileiro moderno com suas abreviações, gírias e palavras escritas fora da norma. Você acha que esse contato com a tecnologia e a sua linguagem pode ser um empecilho no processo de despertar o interesse dos alunos pelos clássicos, que costumam ter uma linguagem mais formal e profunda?

Eu não acho que seja pelo internetês ou pela linguagem contemporânea, é a falta de preparo pra lidar com um a linguagem mais arcaica. Então o problema não é a nossa nova geração. O problema não são eles. O problema é a preparação que a gente tem pra lidar com uma linguagem mais difícil, e a gente não é preparado pra isso.

 

Machado de Assis. Porque vemos esse nome do tantas vezes nos livros e vestibulares? 

Machado de Assis teve uma importância histórica gigante pra gente. Ele foi um grande nome da literatura. Ele foi pra outros mares, pra outros continentes, a obra de um brasileiro negro foi pra outros continentes! Isso conta a história do Brasil. Machado de Assis é um retrato da história brasileira. As críticas dele, todas elas envolviam uma época, ele criticava abertamente através da literatura fazendo piada e sendo sarcástico. Então é por isso que a gente estuda Machado de Assis, ele conta a história do Brasil. Ele denuncia coisas que hoje em dia a gente só denuncia porque ele em algum momento denunciou primeiro. Então as injustiças, a questão de olhar de cima pra baixo, pros outros, Machado fez isso antes da gente. Ele fez isso em uma época em que isso não era bem aceito.

 

 Machado sem dúvida é a grande estrela do realismo brasileiro e um nome muito importante para a literatura, mas vive roubando a cena e deixando outras escolas literárias de lado, como o modernismo. Você acha que mesclar entre as leituras machadianas e algumas obras do modernismo, poderia ajudar na criação do gosto pela leitura dos alunos?

Sim, a gente não pode negligenciar nem um, nem outro, deveria ter esse balanceamento, até porque o Modernismo é o mais próximo da gente. Então estudar o Modernismo é justamente aquilo, entender quem a gente é hoje. O Realismo... É que o Realismo talvez esteja mais próximo do que o Brasil vive agora do que o Modernismo. Pode ser que seja um pouquinho mesmo, a gente vê as obras que são lançadas agora, a gente vê o discurso político das pessoas, por mais que o Modernismo esteja ali, a gente vê o Realismo batendo um pouco na tecla, história que se repete muito no Brasil atual. Talvez esse seja um dos motivos pra baterem tanto nessa tecla.


Alguns nomes muito conhecidos do modernismo são Mário de Andrade, Drummond, Jorge amado, Guimarães Rosa, Fernando pessoa e muitos outros. Mas se você pesquisar os principais artistas do modernismo, pode ser que apareça, pode ser que não, o nome de Rachel de Queiroz, Cecília Meireles e Clarice Lispector, apenas.  Eu particularmente nunca tinha ouvido falar na primeira. Lygia Fagundes Telles, a primeira mulher brasileira a ser indicada ao prêmio Nobel de literatura nem sequer aparece. Como podemos mudar isso? 

Olha a questão da Fagundes é bem legal, a gente vê isso porque as pessoas estão começando a conhecer quem ela é. Eu vejo isso no Instagram literário por exemplo, muitas pessoas vem pedindo indicação e o nome dela é o primeiro que aparece. É justamente aquela questão de trazer nomes que geralmente são esquecidos e colocar eles em evidência. Então isso parte tanto de lugares como a FUVEST por exemplo, que tem essa abertura maior, quanto de professores, grades curriculares... Mas também parte da gente pesquisar. Olha o ambiente que a gente tá, 2021, estamos com internet na nossa mão, também precisamos fazer nossa pesquisa. E eles tão aí, eles não são divulgados talvez pela grande mídia, mas eles estão, a gente só precisa procurar um pouquinho mais.



Você faz parte da nossa comunidade e quer ver o seu texto publicado aqui? Envie-o para exatamenteoblog@gmail.com. Veja mais informações na seção “Sobre o blog”.

Comentários

  1. Oi, Isabele, boa entrevista e bom rever a Ana!

    ResponderExcluir
  2. Oi, Isabele, bom rever a Ana. Ótima entrevista!

    ResponderExcluir
  3. Que bom ver a literatura viva, debatida, louvada. Gostei de conhecer a jovem autora. Parabéns pela entrevista!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas