Sobre neve, abelhas e palavras

 Sobre neve, abelhas e palavras

                 Por Paulo Pivaro

Aaron Burden / unsplash.com

No início de 1611, o matemático e astrônomo Johannes Kepler vinha ao seu protetor, um nobre ligado ao rei da Boêmia e da Hungria, com um presente inusitado. Dizia ao cavalheiro que, como sabia de seu gosto ímpar pelo nada, trazia-lhe aquilo que disso mais se aproximava, um “quase nada”: um floco de neve. Objeto de água, menor que uma gota, quase sem peso, mas ostentando prodigiosamente a forma de uma estrela. Um “quase nada”, dizia Kepler, que no entanto contém em sua assombrosa harmonia o princípio de tudo, a regra de simetria que ordena o universo.

O matemático publicara havia pouco tempo sua Astronomia nova, em que revisava o modelo heliocêntrico de Copérnico e propunha pela primeira vez a órbita elíptica dos planetas. Kepler era herdeiro da tradição clássica, e aprendera com Platão, Euclides e Arquimedes que os fundamentos da natureza são as formas perfeitas da geometria. Fascinado pela organização orbital do sistema solar, carregado de idealismo filosófico, pôs-se a buscar a harmonia indefectível – que enxergava nos céus – nos objetos pequenos, no microcosmos. Intrigou-se com a forma maravilhosa dos flocos de neve, estrelas de seis pontas ordenadas em miríades de variações imprevistas. E voltou-se também para um fato igualmente diminuto e intrigante: os alvéolos de cera produzidos pelas abelhas em estruturas hexagonais simétricas.

Meggyn Pomerleau / usnplash.com

A natureza, com as forças impessoais da física, produzir a simetria parece-nos menos surpreendente do que pequenos animais o fazerem. Que misterioso espírito de geômetra habita as abelhas para terem a proeza de produzir aquilo que os humanos só fazem com empenhado cálculo? Acontece que, como nos lembra Guimarães Rosa, “o sapo não pula por boniteza, mas por precisão”, e as abelhas também não constroem seus favos por exibicionismo. Kepler entendeu que, de todos os polígonos regulares capazes de preencher um plano continuamente, sem deixar vãos entre as figuras – o triângulo equilátero, o quadrado e o hexágono – este último era aquele que apresentava o menor comprimento das bordas em relação à área interna. Ou seja, para as abelhas, que fazem os alvéolos com o intuito de armazenar e proteger o mel que fabricam e que as sustém, as estruturas de base hexagonal significam a capacidade de guardar mais mel utilizando menos cera.

Cera e mel são produtos da coleta que as abelhas fazem de micropartículas vegetais, quase invisíveis para nós, poeira das flores. Os belos flocos de neve forjam-se sob choques de temperatura sofridos nas nuvens – vapor –, que passam diretamente ao estado sólido, cristalizando em estrutura estelar aquilo que era matéria desorganizada. A transformação de desordem em ordem, de dispersão em conjunção, de insignificância em sentido mais que nos ensina: inspira-nos. Como abelhas, somos capazes de fazer nossos alvéolos, nossa proteção, sustento e graça a partir de elementos praticamente nulos. Como a mágica das nuvens, podemos fixar em peso e beleza a forma nebulosa do que se apresenta no real. Nossa matéria sutil e delgada são as palavras. Com elas, meditamos, exploramos os sentimentos e medimos a justiça dos fatos. Rompemos o silêncio de uma dor, construímos quem somos e identificamo-nos com o diferente. Transformamos dúvida em decisão, e decisão em ato. Validamos o que é válido, rechaçamos o rechaçável. Fazemos e fazemo-nos.

Passados quatro séculos, hoje sabemos que o “quase nada” que Kepler oferecera ao seu mecenas impôs derrota às invencíveis tropas de Napoleão e, em pleno século XXI, é uma das poucas forças capazes de fazer cessar o trânsito em Manhattan. Das abelhas, alarma-nos a compreensão de que seu dedicado labor sustenta a fecundidade da maior parte dos vegetais que estão em nosso prato. Pois aqui estamos, amigos, com o nosso “quase nada”. Nosso favo digital, nosso floco de ideias, feito de nossa peculiar hidrocera verbal. Com ele, enchamos o mundo de mel e estrelas, de nosso ser, de nossos seres, contribuindo quiçá com um pequeno punhado para a criação de um tempo mais cristalino, em que a verdade, a justiça e a poesia tenham o seu devido lugar. Vida longa a este blog!

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