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Mais dia, menos dia, chegamos... aonde? 


O mal imenso produzido pela pandemia faz estrago em toda parte, mas nos locais já fragilizados, com pouca estrutura e grande dependência de fatores externos, a coisa é pior. A vida selvagem na África está em risco há tempos, e neste momento a situação é agravada, diz a ONG União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), por dois motivos – a falta de condições de financiamento para a fiscalização das práticas predatórias, e a carência aumentada das comunidades pobres que dependiam do turismo para viver e agora são obrigadas a recorrer à caça. Além da importância da questão em si, é mais um exemplo do estrago em cascata que uma crise mundial produz nos lugares mais vulneráveis.

Olhar para o mundo é entender quem somos, e dar conta da magnitude dos problemas na sociedade globalizada é ser capaz de pensar sobre suas soluções. Parece que os países ricos penam para entender isso. Apesar das medidas ousadamente distributivas que o governo Biden tem tomado no contexto interno de seu país – como o pacote de 1,9 trilhão de dólares para resgate das condições econômicas da população –, no que diz respeito ao mundo, a coisa caduca. Junta-se à União Europeia e ao Reino Unido na posição de não flexibilizar regras de patente (direitos de produção) de vacinas para que sejam produzidas em países pobres, deixando quase todo o continente africano em total impotência diante da pandemia. O programa internacional Covax Facility é válido, mas insuficiente, e ainda há 30 países no mundo cuja população não recebeu sequer uma picada. A situação não é boa, e os detentores das tecnologias, para além da insensibilidade, esquecem-se – incrível – de que a Terra é redonda (ou quase), e que um foco viral localizado é ameaça constante para toda a esfera.

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A Suíça é país conhecido por sua neutralidade diante dos conflitos em que os vizinhos vez por outra se envolvem. Terra de muitas culturas e línguas, esmera-se em construir uma imagem de equilíbrio e justiça, paraíso da civilização (e de fortunas protegidas do fisco, também sabemos). Eis que sua população aprovou há duas semanas, em referendo, uma legislação proibindo cobrir-se o rosto em locais públicos, pretextando defender a liberdade, mas tendo como alvo as vestimentas femininas muçulmanas. Junta-se assim a outros países europeus, como França, Dinamarca e Áustria, na repressão a um costume secular de alguns povos. Curiosamente, o Sri Lanka, país do Sudeste asiático com histórico recente de repressão à população tâmil, acaba de decretar lei semelhante, proibindo também atos que “perturbem o clima religioso, racial ou comunitário”, em uma medida de viés claramente autoritário. Estranha afinidade que a história produz hoje entre suíços e cingaleses. 

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Mais um ataque a tiros nos EUA, repetindo cenas de desespero em meio a civis. A situação gera sempre o debate sobre o armamento da população, suas razões e consequências, e prontamente Joe Biden se manifestou no sentido de aumentar a regulamentação do acesso às armas. O ato, ocorrido em um supermercado no Colorado, veio uma semana após outro, na Geórgia. Neste,o atentado fora triplo – em três casas de massagem e spas, provavelmente pelo mesmo criminoso. Das nove vítimas, seis eram mulheres asiáticas, o que é comum entre as trabalhadoras dessas casas. Antes que se pergunte, é possível algumas delas ofereçam serviços sexuais – e daí? Evidencia-se a abrangência e a profundidade do racismo norte-americano, o risco da ideia de se pensar uma “America first”, tanto mais porque se promove uma certa America, a ser defendida contra o diferente, expurgada dele. Para quem acha que não passa de um ato isolado, May Jeong traça, no New York Times, um panorama do histórico do preconceito contra asiáticos nos EUA, lembrando a proibição de migrantes chineses no século XIX, as prisões sumárias de nipo-americanos durante a Segunda Guerra e as invasões da Coreia (anos 1950) e do Vietnã (1960-1970), com os registros de abusos e violações promovidos pelas tropas yankees.

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Empresários brasileiros buscam flexibilizar a regra estabelecida em lei pela qual a iniciativa privada pode comprar vacinas, mas deve doá-las integralmente à administração pública enquanto todos os grupos prioritários não tiverem sido vacinados, e em 50% após essa etapa. Argumentam que desejam fazer um “trabalho paralelo” ao do governo, imunizando seus colaboradores e contribuindo para o quadro geral. Há que se pensar, contudo, que uma vez em posse do ente privado, a vacina é aplicada em quem este bem entender. O que está em jogo é a questão da venalidade do acesso à medicina. Na verdade, a proibição da compra estabelecida legalmente é que é um elemento fora da ordem, pois sempre no país o direito pleno à saúde esteve condicionado pela capacidade financeira dos indivíduos. O que os empresários reivindicam é a volta a essa norma.

Às vezes a norma, a regra serve para os privilégios, e quem perde estes quer recuperar aquela, que os garantia. Também envolvendo dinheiro e norma, em contexto pandêmico, uma situação curiosa no cenário internacional: o jornal inglês The Guardian revelou que o sistema de compensação financeira emergencial – transferências do governo àqueles que estão com prejuízo de função e salário em razão da pandemia – criado beneficiou com milhões libras cidadãos super-ricos da Inglaterra e do mundo. Do bolo estatal comeram membros da família real saudita, megaempresários do Catar e notórios sonegadores bilionários europeus, entre outros.

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Imaginem um navio vagando pelo Mediterrâneo durante dois meses, tendo em seu interior, confinadas, 895 vacas vivas. Imaginem que esse navio não é autorizado a aportar em seu destino, retorna ao porto de origem, não podendo também aí devolver os animais – por decisão administrativa amparada pela justiça espanhola –, precisa sacrificá-los. Não é preciso ser vegetariano para horrorizar-se com a cena. Além da embarcação referida (Karim Allah), outra (Elbeik), com ainda mais carga (1800 bovinos, reduzidos em aproximadamente 10% devido a mortes ocorridas a bordo), acaba de ter o destino decretado – igualmente, o sacrifício de todos os animais. Sacrifício é palavra que vem de sacro, sagrado, e significada elevar a matéria à dimensão da santidade, santificando-a e promovendo a redenção dos mortais. Nesse sentido, não poderia haver termo menos apropriado para o contexto. Esses atos, longe de nos redimirem, condenam-nos, escancaram o quanto há de atrocidade nos nossos procedimentos mais burocráticos. (Não esqueçamos que a maior parte das exportações de carne do Brasil   para o chamado mundo árabe é feita em carga viva.) Se o modo como tratamos os outros seres pode dizer algo sobre nós como sociedade, devemos ligar um sinal de alerta.

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Guerra civil é aquela que ocorre internamente a um território dito soberano, entre sua própria população, dividida então em facções que se enfrentam mortalmente. Dez anos já se contam desde que, na esteira dos movimentos de reivindicação democrática da chamada Primavera Árabe,a Síria se vê em um combate intestino entre o ditador Bashar Al-Assad e as forças de oposição que procuram derrubar seu governo. Não se tem memória de um conflito recente tão contínuo, tão devastador. A reportagem da BBC é uma aula panorâmica sobre a situação, apresentando dados como os prováveis 500 mil mortos e mais de 5,5 milhões de refugiados, além de explorar a interferência externa de países com interesse estratégico na região (apoio de Rússia e Irã a Assad, dos EUA à oposição), que, somada a um descaso com o país na pauta ocidental, impossibilita uma resolução do impasse. Há pouco que dizer, os fatos são demasiado contundentes (ou desesperadores).


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