Resenha crítica - O Diário de Anne Frank em quadrinhos

O Diário de Anne Frank em quadrinhos

Por Ana Luiza Cerqueira

Fonte: Amazon

    As fotos são meios de tornar “real” (ou “mais real”) assuntos que as pessoas socialmente privilegiadas, ou simplesmente em segurança, talvez preferissem ignorar.” (Sontag, Susan, 1933- Diante da Dor dos Outros, tradução Rubens Figueiredo- Companhia das Letras 2003,).

    É com este trecho de uma obra, referente ao propósito e impacto causado pelos registros de períodos repletos de eventos violentos, que eu decidi iniciar minha resenha do confinamento de Anne Frank e a relação com o cenário atual de quarentena diante da pandemia da Covid-19, uma vez que descreve o que eu senti como leitora, principalmente comparando o diário original, com essa versão ilustrada e com minha própria experiência em confinamento. Colocar realidades tão distintas na mesma frase é desconexo para mim, mas, como citado no trecho que eu trouxe, torna “mais real” e desperta uma consciência que simplesmente seria irresponsável não desenvolver tendo o acesso privilegiado que eu tenho a esta fonte rica em relatos tão sinceros e profundos.

    Resumidamente, Anne é uma menina judia nascida em 1929, que quando completa 13 anos, em 1942, é presenteada com o diário que imediatamente se torna seu melhor amigo, fonte de conforto e ajuda, o qual nomeou Kitty.

    Infelizmente, vemos o pior que um ser humano poderia descrever como sentimento dentre sua própria espécie e sociedade, este período do século XX caracterizado pelos regimes totalitaristas e opressores. Mesmo que a religião não se misturasse a vida da família, o regime nazista na Alemanha levou Anne, sua mãe, pai e a irmã ao início da vida de procurados, refugiando-se na Holanda e mais tarde em um anexo secreto com outras quatro pessoas também refugiadas, agiam assim, muitos outros, caçados por não atenderem a chamada raça ariana.

    Com a leitura vemos dois aspectos principais. O desenvolvimento de Anne em relação aos pensamentos e sentimentos pessoais e o cenário dos outros moradores do anexo e pessoas que os ajudaram.

    Quanto aos relatos de Anne acerca de suas experiências e frustrações, destaca-se a maturidade e  a admirável capacidade que ela tinha de, ao mesmo tempo, sentir os impactos da fome, conflitos armados e condições insalubres e de se posicionar principalmente entre os adultos, mesmo sendo vista como insolente e ingrata ao questioná-los. Penso que tinha como grande virtude construir e ser fiel ao seu caráter.

    Voltando a nossa realidade atual, pontuo que o confinamento por guerra e devido à questão de saúde coletiva se diferem, e muito. Enquanto no primeiro se restringe a esperança de um dia voltar a ser visto minimamente como ser humano no outro ocorre a intenção de zelar por tudo que temos, da economia mundial até aqueles que nos cercam e podem ser contaminados com o vírus. Ressalto que na situação histórica do livro, o vírus está na mente daqueles que foram exacerbadamente além de qualquer valor moral ou existencial pela necessidade destrutiva. Como Anne chega a refletir, independente da situação “cuidadosamente construída, cultivada, criada” chegando o mais próximo da igualdade, sempre poderá existir a necessidade de fúria que incompreendida se torna o poder de limitar e destruir tudo, simplesmente para que retornemos ao início mais uma vez. É aí que me emociono em ver outra diferença, agora podemos nos responsabilizar por nossas próprias ações e escolher fazer o bem na medida que conseguimos, assegurando nossa saúde, e aqueles, que assim como nas primeiras sociedades têm mais recursos que a maioria, também é podem escolher ajudar o próximo. O vírus não precisa estar no controle, como ele foi na mentalidade da guerra e sim ser um obstáculo que é, mesmo que desafiadoramente, superado.

    Espero que tenham gostado da resenha e convido todos a se aventurarem na leitura do Diário de Anne Frank! :) 


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Comentários

  1. Já havia lido esse livre e realizado uma peça de teatro. Ótima indicação e essa obra merece mais reconhecimento!!
    Parabéns pela resenha, amei!

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  2. Já havia lido esse livre e realizado uma peça de teatro. Ótima indicação e essa obra merece mais reconhecimento!!
    Parabéns pela resenha, amei!

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  3. Ana, que belo texto! Já fiz a leitura do livro (2 vezes inclusive) e me apaixonei de primeira. Texto super emocionante e quem fará a leitura tenho certeza que vai gostar também. Parabéns pela resenha, adorei!! :)

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  4. O livro é muito bom e sua resenha ficou incrível. Achei muito interessante a relação que você montou com a nossa situação pandêmica, parabéns!

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  5. A comparação feita é muito boa, pondera pelo critério do bem coletivo, ou seja, pela justiça. Seu texto revela grandeza, Ana.

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  6. Ótimo texto, Ana! O livro merece destaque e o texto que produziu apresentou ótima comparação e reflexão crítica sobre os dias atuais.

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