A grama do vizinho é sempre mais verde

A supervalorização do alheio

Por Isabele Uratsuka


PRIMEIRA   —   Fora de aqui, nunca vi o mar.  Ali, 
daquela janela, que é a única de onde o mar se vê, 
vê-se tão pouco!... O mar de outras terras é belo?  

SEGUNDA   —   Só o mar das outras terras é que é 
belo.   Aquele   que   nós   vemos   dá-nos  sempre  
saudades daquele que não veremos nunca...”            

 - O marinheiro, Fernando Pessoa

       Quem nunca fez e obteve algo e se sentiu bem, porém logo em seguida se deparou com uma pessoa que fez e obteve algo igual, e então começou a se sentir para baixo, desprezar-se, retirar o mérito do seu próprio? Definitivamente isso acontece com frequência e essa sensação, vivenciada por pessoas de todo o mundo é muito bem definida pelo ditado popular “A grama do vizinho é sempre mais verde”.

No diálogo da obra de Fernando Pessoa, duas pessoas conversam, onde uma primeira afirma que só vira o mar daquele lugar e pergunta a segunda se os outros mares são bonitos. A segunda, por sua vez, responde que apenas os outros é que são bonitos, e sempre que vemos algo, pensamos nos outros “algos” que nunca nem vimos, imaginando-os melhores.

É evidente o quanto a falta de autoestima e confiança prejudica as pessoas, mas mesmo quem não tem esses problemas, pode sofrer com a grama do vizinho e isso não se aplica somente a nossas posses, propriamente ditas. Por exemplo, um egípcio pode olhar para as famosas pirâmides de seu país e pensar “até que são boas, mas as pirâmides maias são muito melhores”.

Portanto, nesse pequeno trecho de sua obra, Fernando Pessoa conseguiu expressar um problema gigantesco e muito presente na vida de qualquer brasileiro, a Síndrome de Vira-Lata, que é nada mais nada menos que a falta de autoestima dos brasileiros, ocasionando o desprezo pela sua cultura e valorização da cultura do exterior, e por quê? 

Ora, a culpada não é apenas a globalização (apesar de ter sua grande parcela de culpa). Essa ideia vem de séculos atrás, desde a invasão dos portugueses quando disseram aos indígenas que tudo o que faziam e acreditavam era “errado”, e que a partir daquele momento tudo deveria acontecer conforme o modo português. Outro evento importante na perpetuação dessa ideia foi a Era Vargas, quando Getúlio “abriu as portas” para os Estados Unidos, que vieram com tudo trazendo seu dinheiro e sua cultura, espalhando a política da boa vizinhança, seguindo a todo vapor e atingindo seu objetivo de reduzir a influência europeia nas Américas e direcionar mais nações para apoiar o posicionamento norte-americano.


Referências bibliográficas: 

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