O melhor álbum pop de 2020

Dua Lipa, retrofuturismo e a renovação da inovação do passado

Por Ana Formagio

Enquanto escrevo este texto, estou escutando novamente o segundo álbum de Dua Lipa, o Future Nostalgia, de 2020, e isso me traz sentimentos conflitantes: por um lado, não costumo me atrair facilmente por música pop, porém gosto de me manter informada e conhecer as tendências. Não tenho uma mente fechada para música, estou sempre disposta a conhecer, ouvir e gostar de tudo, o que não anula o fato que, no geral, não gosto da Dua Lipa — ou melhor — não gostava. Por outro lado, o futurismo, especificamente o retrofuturismo, é um dos meus interesses especiais que faço questão de me aprofundar mais diariamente. Com certeza gasto 80% do meu tempo livre consumindo retrofuturismo de alguma forma, seja por meio de livros, artes visuais ou plásticas, filmes, séries, animações ou música, tendo como prova alguns dos meus álbuns favoritos de todos os tempos, como Time (Electric Light Orchestra), I Robot (The Alan Parsons Project) e Mothership Connection (Parliament). Partindo dessa ideia, acredito que, depois de pouco mais de um ano de seu lançamento, deveria fazer uma crítica apropriada a ele, sem impressões passadas a respeito da artista.

Em relação ao seu álbum anterior, que marca sua estreia e leva seu próprio nome, Dua Lipa mostra um grande amadurecimento musical, com canções muito mais complexas e direcionadas a subgêneros do pop que não haviam sido trabalhados no debut, como o dance-pop, o synth-pop e uma remanescência do que um dia foi o funk. A faixa inicial, “Future nostalgia”, que traz o nome do álbum, logo de cara já mostra ao público o que esperar das próximas faixas — sintetizadores, vocoder, groove e a vontade de inovar a partir de conceitos revolucionários de décadas atrás. Toda a maneira com que as canções são estruturadas é associável a outros nomes de peso na indústria musical, como Daft Punk e Jamiroquai. 

Temas que permanecem nas letras de Dua Lipa são a independência, o fim de relacionamentos e a força feminina, tanto “IDGAF” quanto “Physical”  e “Boys Will Be Boys” (sendo as duas últimas de Future Nostalgia) abordam essas pautas de maneira muito apropriada e condizente com toda a temática de seus respectivos álbuns. Minha faixa preferida do álbum é, sem dúvida alguma, o single “Break My Heart”, que traz uma icônica linha de baixo, um excelente groove e uma interpolação com “Need You Tonight” da banda australiana INXS, que imediatamente reconheci ao escutar pela primeira vez. A canção, de acordo com a própria Dua Lipa, é uma “celebração da vulnerabilidade”— a temática que simula o retrofuturismo remete ao passado em aspectos técnicos, sem deixar de ter uma forte carga emocional e letras que clamam por mudanças no futuro e carregam a realidade do presente, fazendo ponte com o distanciamento social por conta da pandemia da COVID-19 ao fazer referência a “abandonar um coração partido”.

Future Nostalgia é o melhor álbum pop de 2020 e traz com um enorme carinho e capricho a lembrança de vários gêneros e artistas do passado. É um bom álbum que merece a atenção dos fãs de música pop e suas ramificações e dos, assim como eu, apreciadores de retrofuturismo. Nota 9/10.

Comentários

  1. Não faço ideia do que são sintetizadores ou vocoders, mas adorei a sua análise. Nunca tinha prestado muita atenção nas músicas da Dua, nem sabia que ela tinha lançado mais músicas depois de IDGAF, mas agora fiquei curiosa pra ouvir o resto.

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