O cerne do padrão
Por Erick Farias
O conceito de padrão estético foi relativizado conforme a evolução do pensamento. Autores de Platão até Schiller (sendo este um dos maiores contribuintes para o estudo) discorreram sobre a beleza das coisas e a esmagadora maioria defendeu que a estética não é algo fixo. Na contemporaneidade, a estética antrópica teve sua ascensão sendo parida pelo ideal estético material, isto é, de objetos.
Antes de dirigir esta crítica para os padrões estético-sociais, hei de esclarecer alguns detalhes importantes para a compreensão do texto. Mantenho neste, uma visão que concebe o ser humano como parcialmente material e desconsiderando a interferência de qualquer processo divino. Assim, critico a padronização estética como um essencialismo (algo que antecede a existência humana), critico o essencialismo nesse caso pela razão de que não há teoria moral ou racional que justifique a padronização de corpos, o máximo que existe a respeito desse tema são opiniões populares e mitos urbanos.
Quando digo parcialmente material me refiro ao rompimento natural que o ser humano desenvolvera a partir da razão, e quando excluo a interferência religiosa no texto, concebo um olhar atomista para a estética antrópica.
Como citado anteriormente, o homem é dotado de uma particularidade. A razão, isto é, confere-se que nenhum ser vivo partilha da sua capacidade de desenvolver-se com seu meio de forma tão produtiva e egocêntrica. A partir dessa racionalidade humana, precisamos concluir que o ponto exato que rompemos com dionisíaco e abraçamos o apolíneo, foi marcado quando começamos a refletir e entendermos a nós mesmos em meio ao mundo.
Esclarecidos os detalhes, determina-se que devido ao ser humano ser individual quanto aos outros corpos, o mesmo está fora de sua zona natural (primitiva), e isso será útil para dividir os rompimentos que o ser teve com a natureza em bons e ruins.
Contra Rousseau, podemos determinar que o desenvolvimento da razão e do pensamento humano (desvencilhamento do natural) nos levou à descoberta de várias áreas da ciência e do saber, o que nos leva a crer que este rompimento em específico foi em si, benéfico, pois ajudou e ajuda na prosperação humana. Tido isto, há atos que retrocedem com a evolução humana, estes, partem de um princípio místico, criado a partir da ruptura com a natureza, por exemplo, a antropofagia foi um ritual permanecido à muitas tribos e grupos primitivos. O ato por si é, em uma visão antropológica, maléfico, sendo assim, parte do rompimento natural que desalinhou e não ajudou no desenvolvimento humano.
Do mesmo modo, os padrões estético-sociais são invenções, e rótulos impregnados no mundo que partem hoje de uma cultura eurocêntrica. Os mesmos, vão muito além da opinião comum, partindo para uma linguagem mais atual, qualquer tipo de "body shaming" é tido com base em um padrão imutável e perfeito criado e mantido socialmente. Mas como é esse padrão? Resumidamente, o padrão é a imagem pouco adaptada do ideal de belo antigo. Homens brancos e musculosos. Mulheres com “corpos violão” e também brancas, tendo qualquer deformidade ou simplesmente destaque em relação à algum aspecto estético humano é visto como ruim e inferior ou até sujo.
Tal imposição é extremamente prejudicial a nosso sistema, por corromper nossa moral, desfigurar nossa auto imagem, e despender de um tempo para alcançar, criticar e até trabalhar em razão desses rótulos.
Essa rotulação ou ideal estético vai totalmente contra a individualidade humana e atribuindo como unidades de medida características determinadas pela genética e pelo fenótipo humano. Racismo, machismo e outros tipos de intolerância corporais são frutos dessa quebra com o natural particular, fundamentalmente, nossa democracia foi parida junto a esse ideal, isso que explica a naturalização do mesmo.
Como qualquer padrão irracional imposto socialmente, este mesmo gera conflitos, mortes, guerra e doenças. Há 2 principais tópicos que fundamentam a instalação do padrão estético-social.
1 — O acolhimento do povo para dentro de sua cultura, isso irá determinar quais pessoas serão inferiores e menos belas com base em seus fenótipos.
2 — A busca para um corpo ideal em pessoas que não tem um biotipo adequado para suprir suas expectativas. Por exemplo, doenças psicológicas como dissociação de personalidade, depressão, ansiedade, histeria e insônia são muito comuns de serem diagnosticadas aliadas à busca desse padrão, há também os transtornos psico-alimentares como: bulimia, anorexia, ortorexia, vigorexia, etc. Esse tipo de busca, gera um mercado que é sustentado por pessoas em busca do corpo perfeito.
Um argumento muito normalizado e defendido na sociedade é justificar os padrões sociais com base em gostos pessoais.
Quando nos referimos à estes gostos, essencialmente tratamos sobre prazer, que por si, está alinhado com nossa sexualidade e libido. Há duas divisões para tratar sobre estes "gostos".
1ª. O mais comum de ouvimos dizer por homens e mulheres são frases que expressam o ódio por determinadas características simultaneamente. Por exemplo: A gordofobia é extremamente normalizada principalmente em relação ao prazer. Pessoas com pré-julgamentos alheios ao sexo dizem optar por um parceiro que não seja gordo, justificando ser por uma questão de "gostos pessoais".
2ª. Há uma pequena parcela instintiva nesses gostos que merece uma explicação. Alguns dos fatores que ramificam o padrão são compostos por fatores alheios à mistificação humana da beleza dita anteriormente. Em resumo, qualquer aspecto corporal que primitivamente incentivara e promovera a procriação foi adequado inconscientemente a nosso ideal estético. Uma prova disso é a famosa contemplação dos seios femininos alimentada pela indústria da moda e pela grande mídia. Segundo alguns estudos, o ser humano desenvolve prazer a partir do que favorece a procriação, assim funciona a evolução. Logo, seios fartos regeriam um ideal de "potência materna" antes concebido pelos homens.
O fato é, instintos são negados o tempo todo na nossa sociedade. A partir do momento em que dormimos em uma cama fabricada, quebramos com a linha do natural e instintiva, dito isto, não se deve hesitar em negar esse padrão estético e esse desejo irracional permanecido e reformulado inconscientemente na nossa sociedade.
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