Perto do Coração Selvagem, Clarice Lispector - Resenha
Ressignificação das mulheres
Por Daniele Silveira
| Capa livro Perto do Coração Selvagem / Amazon.com |
O conceito de gênero é entendido como aquilo que diferencia socialmente as pessoas, de acordo com os padrões histórico-culturais atribuídos para os homens e mulheres. Além disso, há relação com o papel social que define o conjunto de normas, direitos, deveres e expectativas que condicionam o comportamento dos indivíduos dentro de uma instituição.
A conservação de papéis sociais por muito tempo esteve enraizada na sociedade. Os estereótipos padronizaram as funções sociais de homens e mulheres. Essa limitação sobre o que era aceito ou não, de acordo com as expectativas sociais, impedia a liberdade e expressão, principalmente das mulheres.
Simone de Beauvoir, escritora, intelectual e feminista, disse “Não acredito que existam qualidades, valores, modos de vida especificamente femininos: seria admitir a existência de uma natureza feminina, quer dizer, aderir a um mito inventado pelos homens para prender as mulheres na sua condição de oprimidas. Não se trata para a mulher de se afirmar como mulher, mas de tornarem-se seres humanos na sua integridade.” Ela ressalta a complexidade da interioridade, em especial, de uma mulher e o equívoco em querer encaixá-la em padrões e expectativas sociais.
No livro “Perto do coração selvagem” de Clarice Lispector, lançado em 1943, a personagem Joana, que pode ser caracterizada como redonda, é retratada ao longo da narrativa como alguém em busca do seu autoconhecimento, está sempre envolvida no seu fluxo de consciência, uma procura constante em descobrir a razão de ser de sua existência.
O livro faz uma digressão sobre a trajetória de vida da protagonista, ora contemplando a infância, ora a vida adulta, em ambos momentos Joana vai construindo sua identidade baseada em valores pessoais. A obra apresenta a constituição de uma individualidade guiada pela busca de um universo de sensações e que afronta os valores morais do mundo adulto moldado no patriarcado.
Joana representa toda a profundidade e complexidade do ser. Ela está em uma constante alternância entre seu interior e exterior. O poema “Traduzir-se”, de Ferreira Gullar, exemplifica as faces da nossa personalidade, uma é a que permitimos que os outros vejam, é aquela que corresponde aos anseios e ideias sociais. Enquanto a outra é difícil de decifrar, cheia de imprevisões e indagações. “Traduzir uma parte na outra parte - que é uma questão de vida ou morte - será arte?” encaixar ou adequar uma face à outra, seria vida ou morte?
Atualmente, ainda há muito a ser feito em relação aos papéis sociais e função dos gêneros. Precisamos nos libertar daquele antigo rótulo de que as mulheres foram criadas para cuidar do lar e os homens o sustento deste.
Aos poucos caminhamos para emancipação feminina, o papel da mulher não é mais somente ligado à estrutura familiar, ao trabalho doméstico ou à satisfação dos desejos de seus companheiros, por exemplo.
| Clarice Lispector / Google Imagens |
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