"Sempre com respeito"
A
conquista do espaço efetivo das mulheres na Polícia Militar: entrevista com
Valquíria Rocha
Por Ana Paula M.
Foto: Valquíria Rocha
Atualmente, existem muitas mulheres mostrando
suas habilidades e competências, dentre elas, muitas ocupando diversos cargos
dentro da Polícia Militar. São mulheres que lutam muito, fazem diversas
funções, passam por momentos estressantes, por momentos de proteção tanto de si
e de sua família quanto das pessoas ao seu redor, a maioria das quais sequer
são conhecidas. Dessa forma, foi instituído o Dia do Policial Militar Feminino,
que é comemorado na data de 12 de maio. Nesse dia, então, foi reconhecido o espaço
efetivo das mulheres na Polícia Militar.
A policial militar Valquíria Rocha concordou
em ser entrevistada e nos contar sobre como é ser uma policial militar
feminina, abordando sua experiência própria de ter trabalhado durante 34 anos
na Polícia, condição que ainda ostenta.
Quando você
decidiu ser Policial militar? Sentiu algum receio em relação ao seu local de
trabalho? E por que fez essa escolha?
Eu decidi que ia ser policial militar,
policial feminina na verdade, que antes era mais pelo fato de ser policial,
quando eu tinha 8 anos de idade. A gente estava voltando de Minas, que a gente
morava lá, e acabamos nos mudando para São Paulo. E quando a gente estava
voltando de lá, eu vi uma policial no terminal rodoviário do Tietê, que era um
lugar que a gente tinha que sair do ônibus, subir e atravessar o saguão do
terminal rodoviário, e eu vi uma policial. Eu fiquei tão encantada, mas tão
encantada com aquilo que eu segurei na mão da minha vó e falei para ela: “mãe,
quando eu crescer vou ser uma policial”. E foi nesse dia que eu decidi que
seria policial militar.
O medo, eu acredito, é algo que mantém a gente vivo, que
se você não tiver medo, você é louco. Assim receio, receio, eu não tenho, mas a
gente tem aquela situação que você tem que tomar as precauções necessárias como
ser humano e precauções como o profissional da área. Porque isso que mantém
você vivo e trabalhando dentro da legalidade, que é o que a gente faz.
Como você
lida com situações de estresse no trabalho? É proporcionado a vocês, mulheres,
acompanhamento psicológico?
As situações de estresse são quase que
rotineiras para a gente. Nós trabalhamos dentro de situações estressantes o
tempo inteiro, ninguém chama a polícia se realmente não estiver precisando,
dificilmente alguém faz isso, dificilmente você vai para um trabalho policial
que não seja um trabalho estressante. Você vai aprendendo a lidar com isso,
respirar fundo, vai aprendendo, sabendo que quando você olha para a situação e
você vê que você é a parte que vai solucionar ou dar um andamento para uma
solução para o problema, você consegue lidar com isso.
E nós temos acompanhamento psicológico, nós temos hoje
uma coisa bem mais moderna, mas desde o começo sempre teve acompanhamento
psicológico. Nós temos hoje o Centro de Apoio Psicológico, e dentro de cada
região de trabalho nosso temos um núcleo de apoio psicoemocional. Eles estão em
quatro psicólogos que são a Kátia, o Igor, a Ana e uma outra policial. Eles
trabalham não só com o atendimento psicológico, mas também com a parte jurídica
se precisar orientar quem procurar por eles.
Por ser
mulher, já a trataram com indiferença ou fizeram passar por momentos de
vergonha?
Já
passei por muitos momentos difíceis pelo fato de ser mulher. Inclusive, teve
uma abordagem que eu nunca esqueci. Nós fomos pagas pelo COPOM, eu e uma amiga,
para fazer uma abordagem em Moema, que foi pedida pelos moradores. Os caras
estavam bêbados, não eram bandidos nem nada, mas era um cara que estava
dirigindo embriagado. E a gente chegou, tocou a sirene para que eles parassem o
carro, aí eles pararam e, quando eles abriram a porta, o passageiro desceu, nós
demos as vozes de comando e ele pôs as mãos na cabeça, veio andando e virou de
frente para mim. Aí o motorista abriu a porta e saiu do carro. Quando ele abriu
a porta, e que ele saiu do carro, ele disse que achava que era um policial, e quando viu eram duas
mulheres, ele bateu a porta do carro e entrou de novo [sic]. Essa foi uma
situação estressante. Ele fez aquilo porque nós éramos mulheres, mas
continuamos firmes e fortes ali na nossa posição profissional, e falei para
ele: olha, por mais que sejamos mulheres, somos policiais e a gente está dando ordem
pra você sair do veículo. Sempre com respeito, com dignidade, aí ele levou um
susto assim, e acabou saindo, depois pedindo desculpas.
Você sente
que as mulheres policiais são valorizadas e respeitadas dentro do trabalho? Ou
ainda existe uma desvalorização enquanto gênero?
Não, não tem. Assim, eu trabalho na polícia
faz 34 anos de serviço e não tem nenhuma desvalorização. Porque, assim, tudo
depende de como você se coloca profissionalmente. Eu sempre procurei me dedicar
para o que eu faço. Hoje, dentro da minha seção, tem eu e tem um rapaz acima de
mim que é o subtenente, e a gente procura trabalhar todo mundo com o mesmo
nível de conhecimento e capacitação para todos. Nós estamos na minha seção em
três mulheres e todas nós fazemos o mesmo serviço que os policiais do sexo
masculino fazem. Assim, eu posso te garantir, te digo com toda certeza que não
tem desvalorização, temos na polícia mulheres que têm cargo de chefia, de
liderança, de comandante. A solução depende de você, do quanto você age profissionalmente,
do quanto você se dedica e do quanto você se empenha para buscar novos
conhecimentos, em adaptar os conhecimentos antigos à nova realidade. Então, não
tem desvalorização pelo fato de ser mulher.
Como você se
sente em relação à data de celebração do Policial Militar feminino, 12 de maio?
Conte um pouco do que você acha desse dia e de como é na polícia militar.
Poder comemorar é uma coisa que me deixa
muito feliz, celebrar uma data de comemoração pelo fato de existir a policial
feminina é uma coisa que me deixa muito feliz e ao longo da minha carreira eu
tinha certeza, desde quando falei que quando eu tinha 8 anos de idade eu tinha
certeza que eu queria ser policial, e tenho certeza que eu nasci para ser
policial. Eu não faria outra coisa da minha vida com tanto amor como eu faço
sendo policial. Eu posso garantir em te dizer que eu já fiz muita coisa boa
pelas pessoas, muitas coisas boas mesmo, saber que eu socorri pessoas, ajudei
pessoas que se encontravam perdidas, ajudei mulheres, crianças, homens e ajudei
famílias. Pude dar o melhor de mim por tudo que eu fiz na polícia e faço até
hoje. E hoje mesmo, na atividade administrativa, onde trabalho para o nosso
público interno, eu procuro dar o melhor que eu tenho, busco sempre estar
aperfeiçoando os meus conhecimentos, assim como eu fiz ao longo da minha
carreira toda. Porque eu sei que quando eu chego para prestar um serviço, seja
para o nosso público interno, ou seja para o público externo, eu tenho que
estar fazendo aquilo que Deus me proporcionou, que é ser policial e dar o meu
melhor para que isso aconteça.
Tem algum
conselho ou algo para dizer para meninas, mulheres que queiram ou tenham desejo
de serem policiais?
Sempre que as pessoas me falam “eu tenho vontade de
entrar na polícia”, só peço para as pessoas que pense bem, porque, assim, não é
uma carreira que dá para você levar de qualquer jeito. Se você quer ser
policial, você tem que ser, dar o melhor de você, ter certeza que é isso que
você quer e estudar bastante. Sabe, é uma coisa que é importante, se você quer
chegar a uma profissão como essa, você tem que estudar bastante, conhecer as
leis, conhecer aquilo que a polícia faz e, como eu diria para qualquer pessoa
que vai escolher uma profissão, procure ser o melhor que você puder dentro daquilo,
independente de ser policial, ser médico, o que for, a pessoa tem que ser o
melhor que ela puder, “dentro daqui dá o seu melhor sempre”, esse é um conselho
que eu posso dar.
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