Acender as velas - Zé Kéti
Acender as velas - Zé Kéti
José Flores de Jesus, conhecido como Zé Kéti, iniciou sua carreira em 1940 como compositor da escola de samba Portela.
Acender as velas foi lançado em 1965, como um protesto da fase posterior a 1964. A canção apresenta uma crítica às péssimas condições de vida nos morros do Rio de Janeiro.
Analisando o seguinte trecho da canção:
“O doutor chegou tarde demais
Porque no morro
Não tem automóvel pra subir
Não tem telefone pra chamar
E não tem beleza pra se ver
E a gente morre sem querer morrer”
Se torna evidente as condições precárias, onde mais de metade da população não possui acesso regular a pelo menos dois dos serviços básicos: água corrente, energia elétrica com medidor doméstico e/ou saneamento básico através da rede de esgoto regular.
O contexto histórico é importante para compreender porque a música foi alvo de censura. Durante a década de 1960, movimentos de esquerda se intensificaram e ditaduras foram instauradas na América Latina em função da defesa do sistema capitalista.
O relacionamento entre governantes do Rio de Janeiro com áreas mais pobres da cidade possui comportamento variáveis: ora ocorria vista grossa ao crescimento populacional, ora era determinada a remoção e destruição de conjuntos habitacionais. Durante os anos 60, junto ao governo federal, o Estado da Guanabara executou uma ação para remover as favelas da cidade e transferir os moradores para domicílios na periferia. Tais locais eram vistos como um problema de uso do solo, sendo meramente residenciais. O objetivo não era integrar as comunidades à cidade, mas removê-las e despachar seus moradores para locais isolados, sem acesso a transporte eficiente nem a infraestrutura e serviços adequados, longe dos olhos do resto da sociedade. O governador Carlos Lacerda chegou a remover 41.958 moradores, e seu sucessor Negrão de Lima removeu 70.595 pessoas. A partir de 1971 a CHISAM (Coordenação de Habitação de Interesse Social da Área Metropolitana), visava remover 92 mil pessoas por ano e acabar com todas as favelas até 1976. Mas as medidas não atingiram seus objetivos, nem ao menos impediram o surgimento de novas comunidades, já que o número de habitações populares passou de 162 para 283, entre 1970 e 1974.
Com a atual situação do coronavírus, fica ainda mais clara a diferença. Temos dados de 2020 que podemos analisar: no mínimo 1.402 mortes pela doença são de cidadãos de favelas, os casos são computados por moradores que comunicam líderes comunitários, “o estado não chega até a favela”.
A partir disso, percebemos que não é de hoje que essa parte majoritária, da população acaba sendo esquecida. A situação nas favelas é precária, com poucos cuidados e sem saneamento básico. Essas comunidades precisam que medidas sejam tomadas transformando esse contexto.
Os governantes muitas vezes não veem as favelas como pertencentes à cidade, o que limita os investimentos e gastos do governo nesses espaços. Assim, são obrigados a viver em condições de moradia inadequadas, sem transporte, limpeza urbana, energia elétrica e sofrem com a falta de infraestrutura. Mesmo assim, seguem quebrando estereótipos como violência e pobreza, que são como a maioria das pessoas veem as favelas, lutam por mais visibilidade em debates e visam seus direitos como cidadãos.
Para melhor compreensão e associação com os tempos atuais, o trecho que virá a seguir encerra com um tom de pesar a morte da menina Ágata que ocorreu no Complexo do Alemão em 2019, e a morte de João Pedro em 2020, que exemplificam porque a música é atemporal e de extrema relevância.
“É mais um coração
Que deixa de bater
Um anjo vai pro céu”.
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