Música em meio à ditadura

 Por: Giulia Alves 

Após a Segunda Guerra Mundial, a América Latina passou por grandes transformações sociais, com retração econômica e um novo processo de aculturação por meio da indústria cultural estadunidense. Com sucessivos golpes de Estado, a América Latina viveu, entre as décadas de 1960 e 1970, a ascensão de inúmeras ditaduras militares, que conduziram torturas, assassinatos e exílios dos que eram contra elas. Nesse contexto, grupos populares em alguns países latino-americanos organizaram manifestações questionando o modelo político vigente.

Então, foi criado o movimento do tropicalismo, caracterizado por ser um movimento cultural que atingiu, sobretudo, a música brasileira a partir da década de 60. Os artistas tropicalistas articularam uma nova maneira de pensar o Brasil, suas tradições e influências estrangeiras. Eles propunham um tipo de arte que incorporasse radicalmente os elementos culturais mais diferentes, fossem eles nacionais, estrangeiros, antigos, ou modernos.

Fonte: Zonacurva

Diante disso, temos a música “Alegria, Alegria" de Caetano Veloso. A canção foi lançada em 1967 e é considerada uma das principais músicas do período da ditadura.

Letra e análise da canção:

Caminhando contra o vento

Sem lenço e sem documento

No Sol de quase dezembro

Eu vou


Nessa primeira estrofe, notamos que o eu-lírico se encontra caminhando contra o vento como um ato de rebeldia, indo no sentido contrário ao que o período impunha naquele momento.

Ademais, é representada certa liberdade e falta de inclusão na sociedade, já que é apresentado a falta de preocupação com os documentos.

O Sol se reparte em crimes

Espaçonaves, guerrilhas

Em cardinales bonitas

Eu vou


Em caras de presidentes

Em grandes beijos de amor

Em dentes, pernas, bandeiras

Bomba e Brigitte Bardot


Nessas novas estrofes são apresentadas as figuras de duas atrizes, uma italiana e outra francesa, respectivamente. Além disso, é notório que ele percebe que só trocam as “caras” dos presidentes, mas nada muda e o regime continua e ele não se identifica com eles.

A repetição do “eu vou” torna evidente a persistência em resistir aos obstáculos da ditadura.

O Sol nas bancas de revista

Me enche de alegria e preguiça

Quem lê tanta notícia?

Eu vou


Aqui percebemos que o eu-lírico está citando o jornal clandestino “o sol”. Ele traz uma contradição, citando estar feliz pela sede de voz do povo, mas com preguiça devido a quantidade e a mistura de assuntos importantes com fúteis.

Por entre fotos e nomes

Os olhos cheios de cores

O peito cheio de amores vãos

Eu vou

Por que não? Por que não?


Aqui ele prossegue seguindo, sem se afetar pelas fotos, nomes, revistas e notícias.

Ela pensa em casamento

E eu nunca mais fui à escola

Sem lenço e sem documento

Eu vou


Crítica a bitolação das pessoas que não perceberem o que se passa naquele momento, pois enquanto há gente preocupada em casamento, ele se preocupa com o futuro da nação que segue sem qualquer valorização a educação.

Eu tomo uma Coca-Cola

Ela pensa em casamento

E uma canção me consola

Eu vou


Podemos notar um elemento claro do tropicalismo, assim como as referências às atrizes mencionadas: o movimento era caracterizado pela mistura da cultura brasileira com culturas gringas, e nessa estrofe falam sobre a “Coca-Cola”.

Por entre fotos e nomes

Sem livros e sem fuzil

Sem fome, sem telefone

No coração do Brasil


Em tempos de violência, ele não pertence a esse país, mas ainda assim, caminha no coração do Brasil.

Ela nem sabe, até pensei

Em cantar na televisão

O Sol é tão bonito

Eu vou


Sem lenço, sem documento

Nada no bolso ou nas mãos

Eu quero seguir vivendo, amor

Eu vou


Prossegue lutando contra o regime de forma desgastante, querendo e indo em busca da vivência em liberdade, dando assim, seu jeito de sobreviver e se posicionar.

Por que não? Por que não?

Por que não? Por que não?

Por que não? Por que não?

A canção termina dessa maneira. Questionando o motivo de não seguir caminhando e vivendo? É apresentado uma crítica de forma otimista, mostrando que a vida segue apesar dos pesares.

Diante do apresentado, afirmamos que a música pode ser uma ótima forma de pensar sobre a história do Brasil.

Link da musica: https://www.youtube.com/watch?v=WL8l8olaMmI


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Comentários

  1. Olá, Giulia, belo texto sobre esse importante movimento. Viva a Bossa e Viva a Palhoça, pois o monumento é de papel crepom e lata.

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