Biblioteca de Alexandria: o passado que molda o futuro
A princípio, quando li no livro Cosmos, de Carl Sagan, sobre a Biblioteca de Alexandria, não dei muita atenção. Depois de um tempo, em uma conversa fiada com amigos, na qual falávamos algo sobre como nossa geração pode mudar o futuro é que fiz a relação e entendi a importância da história da clássica cidade de Alexandria e sua biblioteca. Se você ficou curioso com o que uma coisa tem a ver com a outra, esse texto será de grande relevância.
Por volta de 300 a.C., foi fundada por Alexandre, o Grande, aluno de Aristóteles, o que se tornaria uma lendária cidade. Sempre estimulando o respeito por diferentes culturas e a valorização de uma mente aberta na busca do conhecimento e com uma localização geográfica privilegiada, Alexandria rapidamente se tornou o centro mundial do comércio, da cultura, do conhecimento e lar de uma brilhante civilização científica.
Havia lá uma grandiosa biblioteca que abrigava eruditos, exploradores, físicos, literários, pesquisadores de medicina, astronomia, geografia, filosofia, matemática, biologia e engenharia. Além de ter sido o ápice da ciência e do conhecimento do mundo naquele período, essa biblioteca, que hoje existe apenas na história, foi o cérebro – e também o coração – do primeiro instituto de pesquisa na história do planeta.
Fonte: Toda Matéria
Só para dar um gostinho do nível dos intelectuais da Biblioteca de Alexandria, cito aqui seis deles e seus principais feitos: Hiparco, mapeou constelações e fez estimativas em relação à intensidade do brilho das estrelas; Herófilo, estabeleceu que a morada da inteligência não é o coração, mas sim o cérebro; Galeno, escreveu obras sobre cura de doenças e anatomia; Heron de Alexandria, inventou engrenagens e motores a vapor; Arquimedes, precursor da mecânica; e Hipátia, a primeira matemática e astrônoma em um contexto no qual mulheres tinham poucas opções.
Os reis sucessores de Alexandre, o Grande mantiveram a biblioteca como um ambiente de trabalho para as mais brilhantes mentes da época. Estima-se que ela continha dez grandes salas de pesquisa, fontes e jardins, salas para dissecação, um observatório e um salão de jantar onde ocorriam debates sobre as mais profundas ideias.
Fonte: Cosmos, Carl Sagan
A parte vital da biblioteca era sua magnífica coleção de livros. É extremamente difícil dizer ao certo, mas provavelmente existiam lá meio milhão de livros. Você não leu errado, mas em todo caso, afirmo de novo: meio milhão de livros. Obviamente, não existiam máquinas de impressão e, portanto, cada exemplar era copiado à mão, o que torna o fato ainda mais interessante. O Antigo Testamento, por exemplo, chegou até nós por meio das traduções para o grego feitas na Biblioteca de Alexandria. Obras vindas da África, Pérsia, Índia, Israel e outras tantas partes do mundo eram compradas pelos reis da cidade, que mesmo pagando caro, sabiam que os conteúdos dos livros eram mais valiosos do que ouro ou prata.
Agora, é o momento que o leitor pergunta “E o que aconteceu com todos esses livros?”. Infelizmente, a civilização clássica de Alexandria com o tempo enfraqueceu, se desfez e a biblioteca acabou sendo destruída. Sabe-se atualmente que alguns papiros com pesquisas científicas da época possuíam conclusões corretas de descobertas que esperaram 2 mil anos para serem redescobertas. Foram séculos de escuridão.
Se pensarmos que boa parte dos manuscritos da Biblioteca de Alexandria continham tamanho saber, apreciamos a grande conquista do povo daquela época e também imaginamos a perda da humanidade com a tragédia de sua destruição. Foi como se o mundo tivesse passado por uma lavagem cerebral na qual sua memória se perdeu. Questiono-me se existiu algum outro Estado que se dedicou tanto à busca do conhecimento.
Fonte: Cosmos, Carl Sagan
Os reis de Alexandria investiram e financiaram pesquisas científicas, ou seja, a busca por novos conhecimentos. Volte um pouco no texto, relembre as seis grandes mentes que lá viveram e os resultados tão avançados (diria até mesmo assombrosos, dados os instrumentos que possuíam) que obtiveram. Eles representam uma pequena fração de intelectuais. Existem muitos outros, dezenas, talvez centenas. Gregos, árabes, hebreus, núbios, fenícios, gauleses, povos do mundo todo lotavam os portos da cidade para viver, negociar e estudar.
Hoje, nossa ciência é muito mais evoluída que a do mundo antigo. Existem espaços, buracos, lacunas na história que não podem ser reparados e mistérios do nosso passado talvez seriam resolvidos com os livros da biblioteca que tanto venerei aqui. No entanto, além de escrever sobre história, meu objetivo com esse texto é falar sobre o presente e também sobre o futuro.
Sinceramente, não sei como seria o mundo e nossa civilização caso a Biblioteca de Alexandria não tivesse se perdido no tempo junto com seu meio milhão de manuscritos. Não tenho resposta simples para o que será do futuro de nossa espécie e tampouco compreendo a razão de alguns acontecimentos mundanos. Mas tenho certeza de que não quero que a geração do próximo milênio (caso ela exista) se arrependa de nossa civilização não ter investido suficientemente em conhecimento.
“Não há na Terra outra espécie que pratique a ciência... O óbvio é às vezes falso; o inesperado é às vezes verdadeiro.” disse Carl Sagan em Cosmos, o livro que citei no início. Por isso digo, nosso passado ensina o que devemos fazer no presente para então moldar o futuro. É inevitável que usemos isso a nosso favor.
Deixo aqui o livro Cosmos de Carl Sagan em formato PDF para quem interessar. Trata-se de uma reflexão vasta e profunda sobre as mais diversas questões antropológicas, históricas, biológicas e astronômicas do universo: http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2020/04/Carl_Sagan_Cosmos_Companhia_das_Letras_21.pdf
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Que banho de cultura, Davi! Parabéns pelo tema, pela síntese, pela posição.
ResponderExcluirQue maravilha de texto , parabéns !
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