Submundo de flores e perfumes
Por Erick Farias
No mundo a vida torna-se um jogo a partir de uma condição essencial: a dor. Afinal, cria-se o calo a partir da pressão constante na pele. De mesmo modo, a atrofia é causada pela falta de movimento muscular. O que tentarei demonstrar nestes dois textos será um ideal comportamental, segundo o qual nossas ações e pensamentos determinam-se fundamentalmente do contato com nosso meio.
Conforme a leitura, fica evidente que a personagem principal experimenta a dor de forma injusta e severa, a qual, de modo quase que obrigatório, a ensina a lidar e pensar conforme a sua vivência.
Mais tarde, haverá duas retas concorrentes que, uma vez cruzadas, irão mudar a trajetória uma da outra.
Francisco, um homem sem muitos enfeites, como muitos por aí, acredita que um dia chegará no clímax de sua vida. Teve uma infância vazia e sem muitos preenchimentos, por isso, faz isso da vida um sustento para seu ego.
_*no escritório da empresa*_
— Francis, já o disse que essa sua obsessão por café um dia o matará. — Censurou José, colega e amigo de Francisco.
—Minha reabilitação exije anestesia. Isso. — Disse apontando à sua caneca. — É a maneira mais efetiva de não enlouquecer ou mandar o patrão se tratar.
Francisco era um homem muito amargurado.
— Pois bem, como sabes, me preocupo contigo e estarei disposto a te ajudar na medida do possível.
— Agradeço sua compaixão, Jé, confirmo que é de profunda felicidade que dispenso qualquer ajuda momentânea. Mas diga-me, como vai você e seu hobbie?
José pintava quadros, mas não somente pintava, os deixava em lugares do centro de São Paulo onde sabia que só os mais humildes e corretos os encontrariam. Francis achava um desperdício, mas profundamente sempre admirou e se interessou pela vida artística, nunca o admitiu porém, à José, que o instigava sempre a ir visitar sua humilde galeria.
Ao final do expediente em alguns dias da semana, Francisco encontrava-se com sua psicóloga. Esta, freudiana, atribuíra seu vício em determinados fármacos à falta de presença que sua mãe tivera com este. Francisco nunca entendeu muito bem a relação, porém, gostava da maneira de falar e carisma da profissional.
— Faz um mês que não conversamos, Francisco, alguma novidade?
— Algumas — referiu com tom sarcástico.
Francisco via o diálogo de sua vida e suas emoções como um campo minado do qual cada passo seu exigiria cautela e receio, tal mania atrapalhava no processo terapêutico que sua psicanalista ousara traçar.
A conversa não durou os 50
minutos da sessão, na realidade, o assunto empacou em menos da metade e deu-se adiante uma vaga menção de coisas que gostava na infância.
— Espero que possamos conversar mais na sua próxima visita, tenho certeza de quê não disse o que precisa. — Afirmou Fabiana, com um tom meigo mas sincero. — No entanto, daremos tempo ào tempo e quando decidir que a hora chegou, estarei aqui.
O plano que Francisco tinha com Fabiana era pago pelo governo há cerca de 5 anos. Foi uma medida imposta da sua primeira reabilitação onde chegara em razão de uma overdose que este haveria tido. Francisco agradeceu, foi embora de ônibus e chorou no caminho até seu apartamento.
Francisco sempre se drogava quando se sentia solitário e vazio, para isso, aprendeu que a melhor alternativa para um dia perigoso seria um amigo que te distraia com seu senso de humor.
_*nas mensagens*_
Boa noite Jé, consegue vir aqui hoje?, não estou muito bem.
Era madrugada de um domingo.
– Estou a caminho. — Respondeu José.
José morava no centro enquanto Francisco em um lugar pouco mais afastado, o trajeto demorou cerca de 40 minutos e as exatas 1:30 a porta de Francisco bateu.
— Pode entrar, obrigado por vir! — Disse Francis com entusiasmo que ele não reconhecera.
— Oras, não precisamos desse tipo de cortesia, relaxa! Fala aí, o que te aflige?
Francisco disse sobre sua consulta com Fabiana e sobre como pretendera mudar algo em sua vida. A conversa se estendeu num tom baixo mas vivo, falaram sobre política, sobre filosofia e piadas de mal gosto.
— Eu definitivamente não te entendo! — Disse José depois de alguns bons segundos gargalhando com o parceiro.
Francisco respondeu pouco tempo depois.
— Como assim?
— Em menos de uma hora você se encontrava em prantos, triste demais para sequer sorrir. Agora me diverte tanto com esse seu humor que só encontro nos melhores dias. Isso me fascina.
Essas últimas palavras dançaram por entre as entranhas do ouvinte.
— Se encontra, de algum modo, quer dizer que procura? —replicou Francisco em longos instantes.
— Talvez.
A tensão cessou conforme o horário passava, a conversa amornou e recaiu sobre o trabalho. Ao nascer do sol, Francisco concordou que José haveria de ir embora, afinal, ambos estavam exaustos.
— Deveríamos sair mais vezes. — observou José
— Daremos tempo ao tempo.
Despediram-se com um abraço e um beijo na bochecha.
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