Antes e depois
Por Ivan Antunes e Paulo Pivaro
Um ano mais termina, está
terminando. Todos nos atarefamos com os processos de conclusão – trabalhos,
provas, o famigerado TCC. Em uma preparação afoita, com um tanto de culpa pelo
que não foi feito, outro tanto de angústia pelo que virá, corremos pelos
corredores de nossa mente atrás das soluções práticas imediatas, da resposta ao
exercício, do nome da península, da fórmula-chave para o problema. Estamos
imersos no aqui-agora, e por dentro e por fora lutamos contra a pressão do
momento, pela libertação que nos fará escapar dessa quina do tempo chamada
novembro. Façamos – eu sei que é difícil, mas façamos – uma pausa.
Inspiração, respiração. Postura
corporal neutra, distensão. Ouvidos abertos, sem expectativa. Olhar plácido
sobre o mundo, sobre()tudo. Aqui estamos, e podemos ver que a vida existe, que
o tumulto é uma vibração a mais, que há vertigem e há ternura, que os carros
aceleram e as flores pousam, que algo está sempre a acontecer só para anunciar-nos
que há o silêncio, mesmo fora da experiência. Muita atenção a isso, ao que não
está. Ao que simplesmente é. “Nossa vida, nossas vidas / formam um só
diamante”, diz o poeta, e repetimos. O que é o universo, o que é a existência
em todas as suas extensões, senão um cristal enorme que, de tão límpido, não se
dá a ver, mas nos contém a todos em seu âmago, como raios que o atravessam
pensando correr soltos no vazio? Esse diamante, a visão improvável desse
diamante é a consciência.
Só sabemos de nós se formamos
alguma ideia a respeito de nossa origem, de nosso destino. De onde viemos, para
onde vamos. Antes, depois. Aqui estamos, mas o aqui não nos diz nada, ele é
apenas a coação do momento, fora do qual – somente – é possível saber-se,
entender, ser. O humano é o grande paradoxo da vida – criatura capaz de
compreendê-la (compreender-se) como nenhuma outra, e, como nenhuma outra, capaz
de destruí-la (destruir-se). Importa, assim, querid@s alun@s, mais do que
nunca, estar além do momento. Estar acima da pressão constante que nos força à
ação impensada, ao automatismo. Mais do que nunca, mais do que sempre, importa
sermos. Sabidos, entendidos, conscientes, forças suprafísicas capazes de
respirar – que bom é respirar! –, olhar para o antes e o depois.
Estamos em um fim de ciclo,
dizia, para alguns mais definitivo que para outros, e devemos nos sensibilizar
para o que isso significa. A língua é sábia, mas também engana, e “passar de
ano” dá a impressão de que nosso forçado esforço nos levará além. Mas é o ano
que passa, não nós. Tanto o do calendário quanto o da série escolar. É ele que
vira, e o faz mecanicamente, independente de nossa vontade, de nossa intenção.
O nosso ir, o nosso chegar são outros, e mal sabemos nomeá-los – o que
pretendemos, o que buscamos? Mas sabemos que são tudo o que temos, o que vale
dizer que só temos realmente aquilo que não possuímos. Em outras palavras, o
que temos é a enorme, inarredável responsabilidade de ser livres, e de,
inventando caminhos, preservar a liberdade.
Antes, depois, eis o que somos. Qual
é a nossa história, quem conhecemos, quantas vezes gargalhamos a perder o
fôlego, e quando sofremos como se o mundo nos engolisse? O que foi que fizemos
de melhor a alguém, qual erro nosso custou o sossego dos outros? O que deu
conforto pela última vez ao ser que virou proteína em nossa refeição de ontem? Em
que leito jaz encostada – estúpida – nossa primeira escova de dente? Onde está
a água contida na primeira gota de mar que umedeceu nossa pele? Onde estará o
amor, o amigo, o encontro traumágico que alterará nosso trajeto? A bem dizer,
de nada disso temos um cálculo, e no entanto ninguém há de negar que nada
importa tanto quanto isso. Pensemos nisso, pensemos no que importa.
Agradecemos a todos que de alguma
(qualquer!) maneira fizeram parte deste blog. Agradecemos especialmente aos
infalíveis, impecáveis, impensáveis editores e editoras. Bom fim de ano a
tod@s!
Tardo, mas não falho! Ainda não havia visto essa belíssima mensagem, mas aqui estou eu: emocionada e grata.
ResponderExcluirAtitudes diferentes, trazem resultados diferentes e com muito esforço, dedicação e um pouquinho de "sofrimento" as coisas acontecem. Assim posso finalizar o ano, orgulhosa por ter participado de inúmeros projetos novos e com esperança de iniciar o ano colocando todos os meus planos em prática.
Aqui deixo um enorme agradecimento aos meus mestres: Paulo e Ivan. Obrigada por terem me motivado todos os dias a continuar na caminhada.
You gave me wings to fly.