A secularizada e progressista geração Z é fundamentalista

"O Fariseu e o Publicano" - Barent Fabritius
"O Fariseu e o Publicano" - Barent Fabritius

A secularizada e progressista geração Z é fundamentalista

Por João Marcos Arrais

Nota atenciosa para leitores desatenciosos: Isso não é um texto de teologia, de filosofia, de terapêutica, de psicologia ou de qualquer outra ciência. Isso é um relatório de uma autópsia. O espírito pós-moderno é um cadáver e aqui eu disseco seu corpo para encontrar a causa de sua morte. Mas quem sabe um remédio de gotas amargas não o faz retroceder de seu estado?


Se tem uma palavra que eu fico de saco cheio só de ler é “fundamentalista”. Não importa se o conteúdo da frase é correto, relevante ou profundo (como “o fundamentalismo prende a mente das pessoas”, “fundamentalistas evangélicos/islâmicos destroem relíquias religiosas históricas” etc) – eu simplesmente tenho ranço dessa palavra. Vou dizer o porquê. 

Sou um cara muito apegado à teologia e à história da teologia; entre o final do século XIX e o início do XX, houve, nos Estados Unidos, um grande conflito teológico entre cristãos progressistas, chamados liberais (que anulavam tudo de sobrenatural na fé em nome de uma pretensa racionalidade pura), e cristãos conservadores, chamados de fundamentalistas (que buscavam guardar os fundamentos da fé cristã que os liberais haviam abandonado). O conflito foi frutífero e os fundamentalistas registraram suas opiniões em uma coleção de ensaios chamada “The fundamentals” (“Os fundamentos”) – daí surgiu o nome fundamentalismo. Contudo, os fundamentalistas se tornaram sectários e cada vez mais rígidos. Por isso, o nome se desgastou e passou a nomear qualquer posição religiosa conservadora que tivesse o sectarismo e uma espécie de ascetismo cultural como características. Fico de saco cheio quando leio “fundamentalista” porque o uso nunca se refere aos grandes nomes da universidade de Princeton ou Westminster, os primeiros fundamentalistas, mas a qualquer indivíduo conservador biruta da cabeça.

Só que isso ainda não chega ao cerne do que é essa nova concepção de fundamentalismo. Isso porque ela restringe o posicionamento sectarista e ascético apenas aos conservadores e, em específico, àqueles que adotam uma religião abraâmica. Mas esse comportamento também é comum a progressistas. O que é a cultura do cancelamento, senão um fundamentalismo secular? A realidade é que a lógica que permeia esse comportamento não é outra, senão a do: nós-bons/eles-maus. E a geração Z não é outra coisa que não fundamentalista. Mas, por razões de comunicação, vamos chamar isso de farisaísmo (mais para frente, eu explico).

Já disse no início que fico de saco cheio quando leio “fundamentalista”. Também o fico quando leio “cultura do cancelamento”. Eu tô cansado de ler essas três palavras. É sério. Mas isso não é tão diferente de apedrejar uma pessoa na porta de uma cidade por crime de blasfêmia ou de exilar alguém por heresia. A diferença é que é a reputação, e não o corpo, o alvo da punição. É isso. Punição. Esse é o passatempo preferido da geração Z.

Agora, um parágrafo autobiográfico antes de prosseguir. Nasci em lar evangélico e sou filho de pastor. Quando nasci, minha família fazia parte de uma seita (pseudo) cristã chamada neopentecostalismo. Não vou entrar em méritos de doutrina; mas, se você quiser ter um bom tipo ideal, os neopentecostais são a esmagadora maioria dos evangélicos (não os considero como evangélicos por razões doutrinárias, mas não entro nesse mérito aqui) que apoiam Bolsonaro (pesquise sobre as mais recentes Marchas para Jesus no Brasil). Mas esse incrivelmente não é o maior problema deles, mas consequência dos problemas maiores. Os neopentecostais agem na lógica do nós-bons/eles-maus, ou seja, são farisaicos: tudo o que vinha de dentro do meio neopentecostal (música, filmes, pessoas, escolas, livros, arte etc) era bom e tudo o que vinha de fora (música, filmes, pessoas, escolas, livros, arte etc) era mau. Sei bem o que é não assistir Ben 10 porque seria algo “do demônio” (o que quer que se tenha em mente ao dizer isso) ou não poder ouvir forró porque é “do diabo”. Continuando: meu pai era pastor na sede de uma das maiores igrejas neopentecostais no Brasil; minha família tinha os contatos das grandes celebridades neopentecostais; se permanecêssemos lá até hoje, meu pai seria nomeado apóstolo (um título estranhamente superestimado no neopentecostalismo que designa a mais alta patente hierárquica nesse meio) e certamente seria influente. Mas graças a Deus vimos o absurdo que era aquilo e saímos dali. Antes eu não tinha qualquer interesse por cristianismo – e, de fato, é isso o que o farisaísmo faz com o cristianismo: afasta os jovens de lá por sua rigidez e impessoalidade; eu sofri com isso e vejo pessoas sofrendo com isso até hoje –; mas, quanto mais nos desvencilhávamos do neopentecostalismo, mais me interessava pela fé cristã, até que, em novembro de 2016, assumi o compromisso total com o cristianismo – ao ponto de meu pai hoje me chamar de fundamentalista/radical por brincadeira.

Pois bem, o que quis dizer com essa nota autobiográfica é: eu sei bem o que é o farisaísmo e sei bem na pele, melhor inclusive do que muitos da geração Z, o mal que ele faz. Digamos que eu tenha lugar de fala nesse assunto.

Não me isento do espírito geral que permeia minha geração; não sou uma bola de demolição contra um muro, pelo contrário, sou um tijolo podre nessa podre parede. Minhas ações repetem na maioria das vezes o comportamento que busco denunciar. Dito isso, vejo um paralelo imenso entre meu antigo meio neopentecostal e a geração Z secularista. 

Graças a geração Z, eu sei o valor do feminismo e do movimento antirracista. Aprendi que conceitos teóricos pretensamente inocentes podem oprimir corpos materiais e reais. Aprendi que não só os indivíduos, mas também estruturas podem disseminar injustiça. Aprendi que pessoas verdadeiramente boas se engajam na luta pela justiça. Se não fosse a militância progressista da minha geração, eu jamais teria aprendido e me interessado por isso. Contudo, eis o seu problema: para a geração Z, não basta seguir um tópico ou outro de sua agenda, mas é preciso compartilhar do seu espírito militante e furioso.

Glória a Deus que a minha geração me alertou dos perigos do racismo e do machismo escondidos nos detalhes e sutilidades da vida cotidiana! Isso me exorta a ser alguém melhor. Mas a geração Z age com fúria contra aqueles que ainda não foram alertados: há justas denúncias de que alguém é racista/machista (e ainda bem!); contudo, são denúncias sem misericórdia. Os alvos dos apedrejamentos da geração Z nunca são alertas; são execuções. “Não há diálogo com racista!”, “Machista se convence na cadeia!” e outras frases (que têm mais de verdade que de absurdo) geram mais antipatia que empatia. No Twitter, milhares (literalmente, milhares) de retweets atacando uma pessoa por um erro. Stories e mais stories no Instagram tendo uma foto de uma pessoa que cometeu uma maldade e um grande texto atacando-a. Se o Facebook não fosse objeto de estudo da paleontologia, textões e mais textões militando contra alguém. Só que ninguém se convence se for tratado dessa maneira – e isso é conhecimento do senso comum, não é preciso estudar para saber disso; é um dado do cotidiano. Mesmo assim, a geração Z ataca os divergentes e põe a si mesma como exemplo de justiça. Repreensões movidas por um fantasma narcisista. Trata-se de um moralismo: eles, que são maus, devem ser apedrejados; nós, que somos bons, devemos ser deixados quietos em nosso canto.

Não nego: eu também ajo nesse espírito. Quem sabe não escrevo nisso porque também sou um miserável de um fariseu? O grande defeito de minha geração (e quando eu digo “minha”, eu infiro que estou dentro disso) é que ninguém sabe olhar para a própria maldade. Somos exemplos de justiça para nós mesmos. Isso é justiça-própria, a fonte de todo ressentimento e de todo cancelamento. Toda boa pauta é corroída por esse infame ácido. Não há mais diálogo: o meu adversário é meu inimigo, e o inimigo, por definição, está do lado errado, e o mal, por necessidade, não é passível de diálogo, mas apenas de expurgação. Não há argumentos nos grandes debates da geração Z (aborto, justiça, sexualidade, racismo e, acima de tudo, identidade); há egos em busca de serem inflados. Somos todos fariseus.

Mas o que quero dizer por fariseus? Ao comportamento denunciado na seguinte parábola do meu Senhor:

“[Jesus] contou também esta parábola a alguns que confiavam em si mesmos, achando-se justos, e desprezavam os outros:

Dois homens subiram ao templo para orar: um era fariseu [os justos valorizados de Israel] e o outro era publicano [os pecadores marginalizados de Israel]. O fariseu, de pé, orava consigo mesmo: ‘Ó Deus, graças te dou porque não sou como os outros homens, ladrões, injustos, adúlteros, nem mesmo como este publicano. Jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho’. Mas o publicano, em pé e de longe, nem mesmo levantava os olhos ao céu, mas lamentava-se profundamente, dizendo: ‘Ó Deus, tem misericórdia de mim, um pecador!’. Digo-vos que este desceu justificado para casa e não o outro; pois todo o que se exaltar será humilhado, mas o que se humilhar será exaltado” (Lucas 18.9-14).

Quem diria? A geração mais progressista da história é também a mais farisaica dos últimos tempos. E todos os fariseus, que enxergam o mundo pela lógica do nós-bons/eles-maus, nunca conseguirão olhar para a própria maldade e sempre tentarão justificar a eles próprios pela humilhação do próximo.

O que falta na minha geração é a visão da cruz de Cristo: todos somos maus e, por isso, matamos o único que era verdadeiramente justo, Jesus. Mas ele ressuscitou para que aqueles que reconhecem a própria maldade se arrependam de seus erros e vivam uma vida justa. Não importa se a geração Z luta pelas pautas corretas: sem Jesus, ela sempre cairá em justiça-própria. “Cristo morreu uma única vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus [...]” (1Pedro 3.18a, grifo meu). E só em Jesus que podemos olhar o quanto somos maus e o quanto precisamos ser salvos por alguém justo. Mortos não agem, mas um vivo pode carregar vários cadáveres. É a lógica dos nós-justificados/eles-servidos.


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